wDivagações e citações - Quarta-feira, Agosto 24, 2011
Entrevista com Mia Couto “A Educação me deu muitos instrumentos importantes, porém precisei me libertar de alguns deles. Para poder crescer, tive de ser capaz de anular algumas coisas.
Portanto, há aqui um processo de aceitar e fazer crescer coisas que a Educação nos ensina, mas também ser capaz de sacudir aquilo que a Educação formata e que não nos ajuda a ser feliz. como. por exemplo, o sentimento de que tudo está certo, de que tudo está estudado, de que não vale a pena duvidar, de que o mais importante é saber dar respostas, quando na verdade o mais importante é saber fazer perguntas, manter um sentimento de inquietação e indisciplina por toda a vida. “ – Mia Couto
E se você tivesse a oportunidade de entrevistar um escritor? Pois os alunos do 3º ano do Ensino Médio do Colégio São Luís, em São Paulo, tiveram. E não foi um escritor qualquer. Há duas semanas, os adolescentes estiveram com o moçambicano Mia Couto no auditório da escola. Em quase duas horas de conversa, os meninos não se intimidaram: fizeram perguntas inteligentes e não deixaram espaço para silêncios constrangedores (a propósito, veja o que o escritor tem a dizer sobre o silêncio na oitava pergunta).
Eu estive lá para acompanhar a entrevista e, junto com os alunos, ri e me emocionei com as respostas de Mia. Ao final, ainda tive a chance de perguntar a ele sobre a diferença que a Educação fez em sua vida. Confira abaixo a entrevista e encante-se com as histórias de Mia Couto, um dos maiores escritores africanos da atualidade. (Fiz questão de deixar as respostas na íntegra. Ficaram longas, mas valem a leitura, garanto!)
1 – Você lutou pela independência de Moçambique durante a guerra civil. Como a sua vivência como militante da Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique) marcou o seu trabalho como escritor?
Marcou de várias maneiras. Foi um processo longo, de escolhas, de um certo risco em um dado momento. Foi algo que me ensinou a não aceitar e a não me conformar. É a grande lição que tiro, que também me ajuda hoje a estar longe desse movimento de libertação, que se conformou e se transformou naquilo que era o seu próprio contrário. Mas eu acredito que ser uma pessoa feliz e autônoma é uma conquista pessoal. Não se pode esperar que algum movimento social ou político faça isso por você. Isso é algo que resulta do nosso próprio empenho.
2 – Como é ser escritor em Moçambique?
Vou contar um pequeno episódio que pode ajudar a responder a essa questão. Um dia eu estava chegando em casa e já estava escuro, já eram umas seis da tarde. Havia um menino sentado no muro à minha espera. Quando cheguei, ele se apresentou, mas estava com uma mão atrás das costas. Eu senti medo e a primeira coisa que pensei é que aquele menino ia me assaltar. Pareceu quase cruel pensar que no mundo que vivemos hoje nós podemos ter medo de uma criança de dez anos, que era a idade daquele menino. Então ele mostrou o que estava escondendo. Era um livro, um livro meu. Ele mostrou o livro e disse: “Eu vim aqui devolver uma coisa que você deve ter perdido”. Então ele explicou a história. Disse que estava no átrio de uma escola, onde vendia amendoins, e de repente viu uma estudante entrando na escola com esse livro. Na capa do livro, havia uma foto minha e ele me reconheceu. Então ele pensou: “Essa moça roubou o livro daquele fulano”. Porque como eu apareço na televisão, as pessoas me conhecem. Então ele perguntou: Esse livro que você tem não é do Mia Couto?”. E ela respondeu: “Sim, é do Mia Couto”. Então ele pegou o livro da menina e fugiu.
Essa história é para dizer que, para uma parte dos moçambicanos, a relação com o livro é uma coisa nova. É a primeira geração que está lidando com a escrita, com o escritor, com o livro. Nós, escritores moçambicanos, sabemos que escrevemos para uma pequena porcentagem da população, que são os que sabem ler e escrever. O livro tem uma circulação muito restrita. Mas, mesmo assim, as tiragens dos meus livros em Moçambique giram em torno de 6 mil, 7 mil exemplares, o que é um número alto. Quando comparo com as tiragens que faço no Brasil, posso dizer que o Brasil não vai muito além. O Brasil não lê tanto quanto pensamos. Se contarmos a população inteira do Brasil e apenas aquela que lê e compra livros, veremos que a situação é proporcional à de Moçambique.
3 – O que os escritores fazem para promover o livro em Moçambique?
A Associação de Escritores de Moçambique faz encontros em escolas primárias e secundárias e em fábricas. E aí tentamos fazer alguma coisa. Mas os livros estão muito caros. É o trabalho que escritor faz, mas é uma panacéia, porque o resto não depende do escritor.
4 – Quais são os maiores problemas de Moçambique hoje?
Antes de responder à pergunta, eu vou dizer uma coisa. A imagem que nós temos uns dos outros é feita muito de clichês, de estereótipos. Vocês também têm uma imagem feita fora. A primeira vez que eu vim a São Paulo, há alguns anos, fui protagonista de uma história engraçada. Quando eu estava saindo de Moçambique, disseram-me que São Paulo era perigosíssima, que havia balas perdidas, gente morrendo, e eu comecei a ficar cheio de medo. Uma das minhas filhas me dizia até que eu ia morrer. Na viagem de avião, que dura onze horas, eu vim pensando que era um perigo e que eu seria assaltado. Tinham me dito para tomar cuidado quando chegasse ao aeroporto, porque tinha saído na Globo – lá também temos Globo – que havia falsos táxis que raptavam as pessoas.
E, de fato, eu já estava contaminado com aquela coisa. Quando cheguei, tinha um motorista da minha editora, mas ele não estava usando uniforme e não tinha nenhuma identificação. Eu logo perguntei se ele tinha identificação e ele disse: “Não, eu sou o Pepe”. E foi me conduzindo por um corredor e dizendo que o carro estava lá no fundo. E o carro não era propriamente um táxi. E a ideia de que eu estava sendo raptado começou a soar na minha cabeça. Quando entrei no carro e sentei ao lado do motorista, eu já estava olhando para a frente e pensando “esses são os últimos momentos da minha vida, vou reviver todo o meu passado, como nos filmes”. Até que o motorista pegou algo no porta-luvas. Era uma coisa metálica, para o meu desespero. E ele estendeu essa coisa e disse: “Aceita uma balinha?”. Vocês estão rindo, mas eu não tinha nenhuma vontade de rir, porque balinha lá não quer dizer a mesma coisa que aqui. Quer dizer bala no sentido literal mesmo, projétil de bala. E aí eu só consegui pensar que estava sendo assaltado, que aquele homem ia me matar, mas que era o assassino mais simpático que eu podia encontrar.
Isso é para mostrar como construímos a imagem uns dos outros. A imagem que se tem da África fora da África é sempre associada à fome, à miséria, à guerra. Mas os africanos não vivem todos assim. Eles são felizes, são construtores de vida, têm uma vida social riquíssima, têm culturas diversas, é o lugar no mundo onde há mais diversidade do ponto de vista lingüístico e cultural. Então os problemas que temos são os mesmos da maior parte dos países africanos. Têm a ver com a miséria, têm a ver com o fato de que a sua própria história é muito recente. Moçambique teve uma guerra civil de 16 anos, em que morreram muitas pessoas. Quando morre uma pessoa, tanto faz se é militar ou civil, mas o que é mais triste é que as guerras da África são guerras que matam, sobretudo, os civis. Os soldados morrem pouco, porque muitas vezes se transformam em forças descomandadas, já que não existe um Estado forte e não há territórios definidos. Mas a África toda não é isso, há grandes histórias de sucesso. Moçambique é ao mesmo tempo uma grande história de sucesso, porque a guerra acabou em 1992 e, quando eu pensava que nunca mais ia ver a paz, o governo conseguiu instalar a paz juntamente com a sociedade civil. E hoje Moçambique é um grande parceiro internacional de investimento e de outros governos. Por exemplo, hoje o Brasil está muito presente em Moçambique, com projetos de construção, de estradas, portos, barragens etc. Portanto, acho que Moçambique vive hoje um momento muito feliz. Mas continua sendo um dos países mais pobres do mundo.
5 – Com sua obra, você conseguiu apresentar a realidade de um país, e até de um continente. Como é a sua relação com Moçambique?
Eu não me considero representante de Moçambique, me considero apenas representante de mim mesmo. Eu tenho duas dificuldades: eu sou de um continente em que os brancos são minoria. Os brancos moçambicanos são minoria. Num país de 21 milhões, os brancos são 10 ou 20 mil. Portanto, eu não poderia ser o representante de qualquer coisa, se é que existe isso de representatividade. E a outra dificuldade é que eu tenho nome de mulher. Agora já não acontece tanto, mas antes, quando eu ia visitar um outro país, muitas vezes estavam esperando uma mulher negra. E eu ficava no aeroporto esperando que alguém viesse falar comigo e nada. Já tive desentendimentos terríveis.
Uma vez fui visitar Cuba e tinham organizado um presente para cada membro da delegação de jornalistas. Voltei com uma caixa de presentes. Na época, vivíamos em guerra. E, na guerra em Moçambique, nós vivíamos em uma situação-limite, não tínhamos nada. Nós saíamos de casa em busca de coisas para comer. Era essa a situação que meus filhos tinham de enfrentar todos os dias. Então eu estava fascinado com aquela coisa de ter ganhado um presente. Quando cheguei em Maputo, abri aquela caixa e eram vestidos, brincos, eram coisas para uma mulher, para a senhora Mia Couto. Então eu não me sinto representante nesse sentido, mas sinto que o fato de seu ser conhecido hoje fora de Moçambique me obrigar a ter uma responsabilidade para com o meu próprio país. Então, quando estou fora, eu tento divulgar a cultura de Moçambique, os outros escritores. Trago livros de escritores moçambicanos e entrego às editoras, para saber se é possível que sejam editados etc.
6 – E com Portugal?
Eu sou descendente, sou filho de portugueses e tenho uma relação com Portugal muito curiosa, porque eu não conhecia Portugal até eu ser adulto. Só fui a Portugal quando eu comecei a publicar meus primeiros livros. E era uma coisa muito estranha, porque a concepção africana de lugar é que o lugar é nosso quando os nossos mortos estão enterrados no lugar. E eu não tenho mortos em Moçambique, infelizmente. Então os meus mortos estão enterrados em algum lugar no norte de Portugal. E eu fui ver esse lugar. Eu queria ver justamente porque queria ter essa relação quase religiosa com o lugar.
O que acontece é que os meus pais imigraram para Moçambique quando eram jovens, tinham 20 anos, e viveram toda a sua vida lá, nunca mais tiveram relação com Portugal. E eles contavam histórias de um país que, ao mesmo tempo que me fascinava, era uma coisa muito distante. O que acontecia é que a minha mãe, ao contar histórias sobre a sua família, seus tios e avós, trazia para mim e para meus irmãos uma presença que nos fazia muita falta, porque todos os meus amigos tinham avós, tios e falavam dos primos. Eu não tinha ninguém. A minha família eram os meus pais e os meus três irmãos. Então o que a minha mãe fazia ao contar histórias era inventar a família inteira. Eu precisava ter um sentimento de eternidade que era conferido por essas histórias que a minha mãe contava. Mas eram quase todas mentiras, quase todas eram inventadas por ela.
7- Qual é a sua opinião sobre a reforma ortográfica?
Eu não sou a favor. Considero que alguns dos motivos que foram invocados para a reforma ortográfica não são verdadeiros. E acho que é uma discussão com a qual os portugueses, principalmente, ficaram muito nervosos, porque, para Portugal, mexer na língua é uma coisa muito sensível. Algumas pessoas de Portugal acreditam que a língua é a última coisa que eles têm, que é a primeira e última coisa que têm, é um sentimento imperial da sua própria presença no mundo que foi posto em causa. Mas a minha questão não é essa. É que eu sempre li os livros dos brasileiros e nunca tive problema nenhum, nunca tive dificuldade nenhuma. Para vocês, que estão lendo meus livros em português de Moçambique, existe alguma dificuldade particular por causa da grafia? Ou a dificuldade é o resto e essa é a única coisa que não é difícil?
Eu acho inclusive que haver uma grafia que tem alguma distinção, um traço de distinção pode trazer um outro sabor a uma escrita. E os brasileiros conhecem muito pouco de Moçambique, de Angola ou de São Tomé. Às vezes eu ando na rua e tenho uma dificuldade enorme para explicar quem eu sou. Na verdade, isso eu não sei explicar, mas a dificuldade é para explicar de onde eu venho. Quando falo que não sou de Portugal, sempre fica uma coisa difícil. Fazem as perguntas mais estranhas sobre o que pode ser Moçambique, se é um país que fica perto do Paraguai, por exemplo. Então a distância entre nós não é um problema que deriva da ortografia, deriva de outras coisas, de política, de uma falta de interesse, de um distanciamento. Isso não será resolvido mudando o acordo ortográfico.
8 – O que pode mudar a imagem negativa que muitas pessoas têm da África?
Há várias Áfricas e eu estou falando daquela que eu conheço. Essa África que eu conheço sobrevive por um espírito de solidariedade, de abertura e de respeito com os outros. A forma que os africanos têm de se abordar, de saber um dos outros é uma coisa genuinamente autêntica. Quando eu estou cumprimentando alguém, quando estou falando com alguém, eu dou espaço para o outro. Então há uma lição de escutar os outros. Eu nunca falo quando o outro está falando, dou espaço, não tenho medo do silêncio, que é uma coisa que acontece aqui. As pessoas estão conversando, de repente há um silêncio, e isso é um peso, é uma coisa da qual temos que nos libertar, é uma ausência. Na África, essa ausência não existe. Nesse silêncio, há sempre alguém que fala. São os mortos. Por exemplo, a relação com o corpo. É preciso ter tempo para encontrar alguém. Quando eu estou falando com um homem, eu cumprimento com um aperto de mão. Mas o aperto de mão não é igual, tem um ritual. Depois do aperto, a mão fica na mão da outra pessoa. Não tem nada a ver com interpretação gay. A mão fica na mão da pessoa com quem estamos falando, e essa mão não tem peso, é uma mão leve. Porque se fala com o corpo. Temos essa liberdade de poder usar o corpo para dizer coisas que não podem ser ditas pela palavra. São coisas pequenas que nos mudam muito interiormente. É uma capacidade de estar disponível para os outros. E capacidade de ser feliz.
Eu também encontro muito isso no Brasil. Tem a letra de música brasileira que diz “levanta, sacode a poeira, dá volta por cima”. Eu acho que isso é, em grande parte, uma herança africana. Isto é para não ficar lamentando a desgraça. Eu acho que, se os europeus vivessem as dificuldades que vivem os africanos, eles seriam muito amargos. Aliás, já são. A forma como os africanos celebram a alegria de viver e o fato de que qualquer momento é um momento de festa, de celebração, de dança, de canto, acho que é outra coisa que é importante aprender. Há uma tolerância profunda. Vocês vão ouvir mil histórias sobre intolerância, e essas histórias também são verdadeiras. O mundo é feito dessa coisa contraditória, mas a verdade é que há uma tolerância muito grande. Essa tolerância nasce de uma coisa. O que eu vou dizer agora é muito importante: a África só pode ser entendida se vocês perceberem que a África tem uma outra religião. Essa África negra tem uma outra religião. Essa religião não tem nome. Não é o candomblé, não é a umbanda, é outra coisa. É uma religiosidade que não se separou das outras esferas do pensamento. Não é um sistema de pensamento. Na África que eu conheço, existem os deuses das famílias. Você tem os seus deuses, eu tenho os meus deuses. Isso significa que eu não estou muito preocupado em te convencer de que existe uma verdade só, que é uma coisa muito típica das regiões monoteístas, que é uma verdade que tem de ser imposta ao outro e o outro tem de seguir esse princípio. Você pode ter a sua verdade, eu tenho a minha, e está tudo certo. Acho que essa é a razão para os africanos terem essa tolerância.
Mas a verdade é que africanos são muito parecidos com todos os outros. Essa ideia de que a África é muito diferente, muito exótica existe só na cabeça de algumas pessoas. Mas há uma coisa que é preciso ser dita. Em uma sociedade que é muito pobre, às cinco da manhã, às vezes eu saio de casa e vejo as pessoas já acordadas, atravessando quilômetros a pé, andando 30, 40 quilômetros para ir à escola, saindo de casa sem o café da manhã e tomando simplesmente uma xícara de chá com muito açúcar para dar energia, para ir para a escola aprender. Eu tenho um prazer enorme de ir às escolas em Moçambique, porque os meninos estão ali com uma fé quase religiosa. Eles estão ali absorvendo, têm os olhos abertos até o infinito, estão completamente ali. Não se ouve uma mosca passando na sala. É um investimento que eles fazem em uma outra esperança, em uma outra crença. É impressionante. Mas há escolas em Moçambique nas quais eu não vou: a escola americana, por exemplo, que é uma chatice. É uma vida feita de facilidades, em contraste com essa vida de conquistas, em que as pessoas têm de sair de manhã e têm de lutar. Às vezes nem tenho coragem de perguntar a esses meninos o que eles fizeram para chegar à escola naquele dia. Muitas vezes o giz é feito com pau de mandioca seca. Às vezes, não há sala. É uma árvore. E não há cadeiras, as pessoas sentam no chão. No entanto, aqueles meninos estão todos os dias ali na escola, assim como os professores. Isso é uma grande esperança. É um universo de gente que sabe que tem de fazer isso para construir uma vida diferente. É uma grande escola.
9 – Como você e as personagens da sua obra dialogam com o mundo contemporâneo, que é marcado pelo consumismo e pelo hedonismo?
Eu acho que um jogo de construção e desconstrução porque esse mundo que você retrata como sociedade do consumo existe e não existe em Moçambique, porque muitas vezes consumimos muito pouco. Consumimos mais aquilo que é ilusão. Cada vez menos o Estado confere Educação e saúde, e nós temos que conseguir isso por outras vias. Então o que eu procuro fazer nos meus livros é uma coisa que eu posso fazer como escritor. Eu não posso lutar para além desse limite, que é sugerir que há outros caminhos, que é possível sonhar, que não podemos ficar acomodados, resignados. Obviamente eu não posso propor uma tese ou um modelo alternativo nos meus livros, nem saberia fazer isso, mas posso incentivar o gosto, a vontade.
10 – Como você vê os seus personagens no cinema? Como é a visão física deles?
É um estranhamento, porque aquilo que eu criei não tinha voz nem rosto, nem para mim mesmo. Então de repente o personagem tem uma voz. Mas, mesmo que seja a mais bela voz do mundo ou o rosto mais belo do mundo, o fato de ter um rosto e uma voz e não estar aberto e não ter vozes múltiplas é uma perda. Por isso, eu me distanciei. Se participo do filme, é somente para pontualmente dar algum apoio, mas não como alguém que tenha competência para isso, porque eu não tenho. Eu quero que o realizador de cinema faça um produto distante, que é capaz de se soltar, ganhar asas e sair do texto escrito, senão perde como livro e perde como filme.
11- Você gostou de “Um rio chamado tempo, uma casa chama terra”, filme baseado em seu livro?
Mais ou menos. O que tinha de dizer já disse ao realizador, que é meu amigo. Gostei, mas não gostei.
wDivagações e citações - Quarta-feira, Abril 20, 2011
Marrabenta
Um dia eu caminhava pelo centro de Maputo e tive a impressão de ouvir uma batucada de samba. Fiquei intrigado, mas não se tratava de alucinação auditiva. Procurei e descobri que eram operários que faziam uma obra em um sobrado. As marretadas tinham ritmo musical.
Noutra ocasião, vi uns trabalhadores instalarem uma caixa d’água. Um deles cantava e os demais, em coro, respondiam ao canto. Era o canto que dava o ritmo de trabalho, indicava quando todos deveriam fazer força para que a caixa fosse alçada.
É evidente que a música é funcional. A polêmica entre Camargo Guarnieri e Koellreutter, em que Guarnieri, na condição de representante do PCB, adotou posição profundamente reacionária, está superada.
Apesar de saber que muitos ritmos tradicionais eram músicas laborais, como o Vissungo, dos escravos da mineração, em Minas Gerais, foi em Moçambique que eu percebi com mais concretude a relação da música com a vida cotidiana.
A primeira coisa que me chamou a atenção é que, ao contrário da cultura ocidental, na cultura moçambicana não há separação entre música, canto e dança.
A segunda observação importante é que a música estabelece comunicação além da nossa. É um elemento integrante da comunicação entre os viventes e seus antepassados, entre humanos e outros animais, entre seres e coisas.
Mesmo a música tradicional moçambicana sofreu influências exterrnas. A existência de alguns instrumentos, como o Thakare, no Niassa, o Kanhembe, em Cabo Delgado, o Kaligo, no Tete ou Viela, em Nampula, todos eles evidenciam a influência árabe. O Tufo e o Nsope, danças tradicionais de Nampula e Cabo Delgado, são claramente influenciadas pela música árabe.
Em alguns casos, é muito clara a função da música, como a dança Muthimba, tradicional em casamentos nas províncias de Maputo e Gaza. Outro exemplo é o Zore, dança da colheita e da fertilidade, do Sul de Moçambique.
Noutros casos, a representação da vida cotidiana, individual e coletiva, é feita de forma dramatizada, como na Makwayela ou na Timbila.
No processo de colonização moçambicana, os colonizadores tinham como divertimento musical as bandas de polícia, além disto, a música sacra e a música ligeira também foram introduzidas em Moçambique, contudo, os músicos tradicionais foram excluídos destas manifestações musicais. Isto propiciou e garantiu a continuidade da música tradicional em sua forma autêntica, não assimilada e modificada pelos colonizadores.
Ao mesmo tempo, os moçambicanos assimilados pelo processo musical introduzido pelos colonizadores foram excluídos da participação na música tradicional.
Por conta disto, deu-se um processo interessante: os músicos moçambicanos assimilados, a partir de seu convíviocom a música tradicional, criaram novas manifestações, dentre elas, destaca-se a Marrabenta, talvez a mais popular e difundida expressão musical moçambicana. A Marrabenta combina técnicas vocais e harmonia ocidentais com estruturas melódicas e rítmicas moçambicanas.
Atualmente, Hortêncio Langa é o grande nome da Marrabenta, eu o conheci pessoalmente, é um grande músico e artista plástico, sobrinho de Alexandre Langa, o maior nome da Marrabenta.
wDivagações e citações - Sábado, Novembro 29, 2008
Marola
Em 1999, o pintor Jean-François De Bus mostrou-me seu quadro “Salon”. Ao vê-lo, imediatamente eu me lembrei do famoso baile da Ilha Fiscal. Expliquei ao pintor que no dia 9 de novembro de 1889, em homenagem à oficialidade do encouraçado chileno Almirante Cochrane, foi realizada uma grande festa, exemplo de opulência e desperdício imperiais, na qual foram consumidos mais de dez mil litros de cerveja e mais de trezentas caixas de vinho e champanhe, além de quase uma tonelada de camarão, dezenas de faisões, centenas de perus, dentre outros ingredientes das iguarias servidas em almoço e baile para, respectivamente, 500 e 4.500 convidados. Na festa, muitos perderam a compostura, no dia seguinte, pelo chão, foram encontradas condecorações militares e peças do vestuário íntimo feminino.
Consta que, ao chegar à festa, D. Pedro II escorregou e quase levou um tombo, ao recompor-se disse: “o monarca escorregou, mas a monarquia não caiu”.
Na mesma noite do baile, em reunião no Clube Militar, Benjamin Constant pediu plenos poderes para desencadear o movimento que resultou na Proclamação da República. Ao fim da reunião, enviou emissários a expoentes da Marinha, que aderiram ao movimento, dentre eles, almirantes Alexandrino e Wandenkok e capitães-de-mar-e-guerra Lorena e Veloso.
Duas semanas depois do baile da Ilha Fiscal, a família real acordou de madrugada, D. Pedro II saiu do Paço Imperial em um coche preto, em um cortejo aberto por duas mulheres vestidas de preto e fechado por soldados da cavalaria. Às três da manhã, no cais Pharoux, o imperador pisou pela última vez o solo pátrio.
Convite para o baile da Ilha Fiscal
Há muito tempo é evidente que a crise econômica nos atingiu. Há cerca de dois anos, o IBGE mudou a metodologia de agregação de dados e o governo festejou a “melhora” refletida. É muito cinismo. Cada ano é uma panacéia: Fome Zero, Primeiro Emprego, PAC, Pré-sal, blá-blá-blá. Houve um ano que Lula saía pelo Nordeste acusando a oposição de não aprovar o FUNDEB, que não passaria da inclusão do pré-escolar no FUNDEF, como um entrave ao desenvolvimento do país. Mentia deslavadamente para os analfabetos que o ouviam.
Salon, de Jean-François De Bus, poderia se chamar “Crise brasileira“
Aqui no Cárcere - Agostinho Neto
Aqui no cárcere
eu repetiria Hikmet
se pensasse em ti Marina
e naquela casa com uma avó e um menino
Aqui no cárcere
eu repetiria os heróis
se alegremente cantasse
as canções guerreiras
com que o povo esmaga a escravidão
Aqui no cárcere
eu repetiria os santos
se lhes perdoasse
as sevícias e as mentiras
com que nos estraçalham a felicidade
Aqui no cárcere
a raiva contida no peito
espero pacientemente
o acumular das nuvens
ao sopro da História
wDivagações e citações - Quinta-feira, Outubro 30, 2008
Agradecimento
Como não disponibilizamos livro de presença na cerimônia de cremação de nossa amada Sílvia, não podemos agradecer nominalmente a todos que compareceram, Mesmo sendo avisada com menos de 24 horas, a cerimônia de cremação foi muito concorrida. Aturdido, não consegui estimar o número de presentes, disseram-me que foram bem mais de cem pessoas. Também recebemos muitos telefonemas.
Quem quiser poderá ver as mensagens que nos foram enviadas por correio eletrônico clicando aqui
Canção Primeira Geraldo Vandré
A canção primeira
como a derradeira
não vá, te negar
A canção primeira
sem eira nem eira nem beira
é só te lembrar
Na viola amiga,
que é chegada antiga
pra te acompanhar
Da canção primeira
livre e livradeira
que eu quero te dar
Compreende amiga
que eu não marque ainda
quando te encontrar
Que eu faça cumprida,
tanto quanto a vida
que foi só cantar
Dessa história antiga,
às vezes cantiga
pra eu poder contar
De ti companheira,
tu de corpo inteira
como eu pude amar
E perdoa amiga,
que eu não vá correndo
hoje te abraçar
Nem cortar caminho,
nessa caminhada
que é pra te encontrar
Que eu guarde a esperança,
que vem vindo o dia
de poder voltar
Sem ter na chegada,
que morrer amada,
ou de amor matar.
Para ouvir a música, por favor, clique aqui ou abaixo
wDivagações e citações - Segunda-feira, Abril 25, 2005
Notícia bem dada
Muitos anos de trabalho duro, mas compensadores.
Constituiu um bom patrimônio e começou a gozar a vida.
Depois de muitos anos, finalmente férias maravilhosas, na Europa é claro!
Antes de viajar, deixou tudo no "piloto automático", todos os pagamentos agendados, tomou as decisões mais importantes e delegou a execução de ações pertinentes.
Nada mais justo que não querer ser incomodado, a não ser, evidentemente, "por motivo de força maior".
Qual não foi a sua surpresa e contrariedade quando tocou o telefone, às três e meia da madrugada, interrompendo o "bem bom".
Tinha que ser João Osório, o capataz de sua principal fazenda.
Lembrou-se de que o capataz nada devia saber de fuso horário.
— O que foi João, algum problema?
— Não, nada não.
— Se não há problema, por que me telefonou?
— É só pra dar um aviso, nada demais.
— Que aviso, rapaz! (já começando a ficar irritado).
— O seu cachorro morreu...
— Que cachorro? Bingo?!
— É sim este mesmo.
— Será possível?! O meu cachorro de estimação! Com inúmeras premiações internacionais.
— Pois é. Doutor, nem as medalhas e os troféus livraram ele.
— Morreu de quê?
— Comida.
— Que comida?!
— Comeu carne estragada...
— Não acredito! Deixei comida estocada para mais de um mês! Que carne foi esta?
— Carne dos cavalos, que se estragou.
— Que cavalos? Aí só tem dez cavalos de corrida, apenas os campeões!
— Deles mesmo, morreram todos.
— Será possível? Estavam medicados, vacinados e sempre assistidos pelo veterinário. Como morreram?
— Acho que foi de cansaço...
— Cansados de quê? Estavam na época de repouso, nem era para treinarem.
— Cansados de tanto carregarem água...
— Carregarem água? Aí tem água canalizada, irrigação, pra que carregarem água?
— Pra apagar o fogo...
— Fogo?!?! Que fogo rapaz?
— Do incêndio da casa grande.
— Você está falando da casa restaurada, repleta de móveis de antiquários e obras de arte?
— Esta mesma, o fogo lambeu tudinho.
— Mas como foi pegar fogo? há um sistema contra incêndio, as instalações elétricas foram revisadas recentemente.
— Foi a vela que caiu.
— Vela, mas pra que usar vela? tem gerador, até lâmpada de emergência tem na casa!
— Vela do velório.
— Velório?!?! Do que você está falando?!
— Velório da senhora sua mãe.
— Minha mãe?! Ela nem mora aí, você ficou maluco?
— Mas este foi o problema, pois ela chegou de noite sem avisar, aí eu mandei bala!
Polêmica
O crime não compensa e quando compensa, muda de nome ¿ Millor Fernandes.
Quantos grupos musicais seriam famosos se tocassem, por exemplo, música evangélica?
Não vejo problema algum em grupos musicais religiosos, aliás, muito da música negra dos EUA, e não apenas spiritual, tem motivação e vinculação religiosa, sem deixar de ser música de qualidade.
No Brasil há inúmeros folguedos religiosos de grande qualidade artística.
O ruim é quando o músico usa a religião por ser um atalho para o sucesso, independente das crenças dele.
Na arte, na política e até na ciência há exemplos de oportunismo; muitos deles absolutamente legais, mas antiéticos.
Em nenhum momento, na postagem anterior, questionei o fato de alguém fazer propaganda em blogue e ganhar algum dinheiro com isto.
É legal e é ético.
Contudo, a mim desagrada botar um anúncio, sobre o qual eu não terei controle, podendo anunciar um produto que eu não aceite consumir.
Além disto, a propaganda certamente afetaria a estética (minha pobre estética) de Agreste e tornaria a carga da página mais lenta do que já é.
Atualmente ela é lenta por ter música e fotos, mas isto faz parte do que pretendo mostrar aos amigos que visitam o Agreste.
Não pretendi e nem pretendo exercer o patrulhamento ideológico.
Mais que isto: até concordaria em fazer parte de um projeto, individual ou coletivo, que buscasse patrocínio como forma de remuneração de produção cultural ou literária, mas aí já são outros quinhentos.
Outro reparo que me fizeram: seria falsa modéstia dizer que Agreste tem poucos leitores?
Não.
Há amigos que recebem diariamente mais de trezentas visitas, muito além das registradas em Agreste.
E nem me refiro a blogueiros famosos, como Ricardo Noblat que chega a ter mais de dois mil comentários diários.
Não se trata de falsa modéstia, mas de reconhecimento da realidade.
E não estou insatisfeito, pois prezo os leitores que visitam e fazem comentários, se não fossem eles, talvez Agreste já tivesse sido desativado.
wDivagações e citações - Sábado, Fevereiro 12, 2005
Recentemente, temos discutido em Agreste as nossas identidades e parecenças.
Em função disto, uma grande amiga de São Tomé e Príncipe me enviou uma apresentação angolana.
Como o formato não era adequado à Internet, mantenho imagens, texto e música com a disposição que é possível.
Lamento a perda de qualidade.
Muxima, que quer dizer saudade, é uma música da qual sempre gostei muito. A execução é do Duo Ouro Negro.
As pinturas estão assinadas.
Angolano Neves e Sousa
Ser angolano é meu fado, é meu castigo
Branco eu sou e pois já não consigo
mudar jamais de cor ou condição...
Mas, será que tem cor o coração?
Ser africano não é questão de cor
é sentimento, vocação, talvez amor.
Não é questão nem mesmo de bandeiras
de língua, de costumes ou maneiras...
A questão é de dentro, é sentimento
e nas parecenças de outras terras
longe das disputas e das guerras
encontro na distância esquecimento!
wDivagações e citações - Quarta-feira, Janeiro 12, 2005
Luzes da Cidade
Já vem tarde.
Francisco Sobreira é um escritor cearense radicado no Rio Grande do Norte.
De Sobreira, li apenas Infância do Coração.
É um romance ambientado no Ceará de meados do século passado.
A vida simples e comum de um menino interiorano, a sua transformação em homem.
A narrativa é muito boa, em uma linguagem simples.
Os pequenos conflitos, a mudança para a capital - cuja vida é brilhantemente apresentada como pano de fundo - a inserção social, as experiências, amores, a descoberta da magia do cinema, o início da vida profissional...
Tudo muito comum.
E é exatamente o tratamento das coisas simples e comuns da vida cotidiana que confere universalidade ao romance.
Em muitos momentos parece um relato autobiográfico.
Até isto é bom, pois cada fato narrado soa verdadeiro.
Mesmo considerando recomendável a leitura do romance, não é este o objetivo desta postagem.
Afinal, o título não é Infância do Coração e sim Luzes da Cidade.
Acontece que Sobreira adentrou a blogosfera.
Como disse anteriormente, já vem tarde.
Há muito precisamos que este cineclubista eleve a qualidade de nosso universo bloguístico.
Por favor, confiram: Luzes da Cidade.
Flora do Cerrado
O Cerrado é muito parecido com o Agreste.
No Agreste não tem cupim como no Cerrado.
Em compensação, o Cerrado não tem tanta pedra, muito menos lajedo, como no Agreste.
A floresta, na Amazônia, é exuberante e grandiosa.
Mas o Cerrado tem uma variedade de plantas que supera a Amazônia.
Na passagem pelo Parque das Emas, não pude ficar insensível à vegetação.
Bem sei que as pessoas se interessam muito mais pela fauna que pela flora de lá.
Se eu disser que pouco sei de Botânica, estarei exagerando.
Para pouco saber, teria que aprender muito.
Eu nada sei de Botânica.
Nem em sonho eu poderia pensar em fazer algum levantamento sistemático ou algum trabalho de fitotaxionomia.
Mas eu fiz algumas fotos.
Criei um álbum com noventas delas.
Quem gostar e quiser apreciar, basta ir até Flora do Parque das Emas, caso seja solicitada uma senha, basta digitar Agreste.
Para fotografar, precisei da autorização do Diretor do Parque.
Desde que não seja para uso comercial, se alguém quiser usar alguma imagem, poderá fazê-lo desde que cite a autoria.
wDivagações e citações - Domingo, Janeiro 09, 2005
Recentemente, temos discutido em Agreste as nossas identidades e parecenças.
Em função disto, uma grande amiga de São Tomé e Príncipe me enviou uma apresentação angolana.
Como o formato não era adequado à Internet, mantenho imagens, texto e música com a disposição que é possível.
Lamento a perda de qualidade.
Muxima, que quer dizer saudade, é uma música da qual sempre gostei muito. A execução é do Duo Ouro Negro.
As pinturas estão assinadas.
Angolano Neves e Sousa
Ser angolano é meu fado, é meu castigo
Branco eu sou e pois já não consigo
mudar jamais de cor ou condição...
Mas, será que tem cor o coração?
Ser africano não é questão de cor
é sentimento, vocação, talvez amor.
Não é questão nem mesmo de bandeiras
de língua, de costumes ou maneiras...
A questão é de dentro, é sentimento
e nas parecenças de outras terras
longe das disputas e das guerras
encontro na distância esquecimento!
wDivagações e citações - Terça-feira, Novembro 30, 2004
Amigo oculto
Qual o significado da brincadeira de amigo oculto?
Atualmente, no Brasil, em inúmeras empresas, a competição é mais estimulada que a cooperação.
Nestes casos, o ambiente de trabalho é tenso, as relações entre colegas são as piores que se pode imaginar.
Ao fim do ano, são organizadas festas de confraternização e, nelas, há troca de presentes, através de amigo oculto.
Vazio, falso, deprimente.
Mas nem sempre foi assim.
Quando eu estudava o primário, atual ensino fundamental, primeiro segmento, a brincadeira era muito diferente.
O amigo oculto era mensal.
A professora organizava e todos alunos participavam.
No primeiro dia do mês, eram sorteados os nomes dos amigos.
A partir do dia seguinte, cada um escrevia uma carta para o amigo cujo nome sorteara e assinava com um pseudônimo.
Apenas a professora sabia a quem correspondia cada pseudônimo e, também, quem era amigo de quem.
Todos, ao chegarem à sala de aula, entregavam a carta à professora, que as reunia e, ao fim da aula, as distribuía.
No outro dia, todos respondiam, assinando com o próprio nome e o destinatário era o amigo oculto.
Durante todo o mês exercitávamos diversas coisas.
A primeira delas, evidentemente, era a prática de redação.
A segunda era a observação.
Observávamos a pessoa cujo nome havíamos tirado no sorteio.
Escrevíamos para ela.
Também atentávamos os demais colegas na tentativa de descobrimos quem nos havia tirado.
Éramos crianças das primeiras letras, então havia a ansiedade associada à curiosidade infantil.
Ao fim do mês, eram revelados os amigos.
Não havia troca de presentes, no máximo, de pequenas lembranças, preferencialmente coisas feitas por cada um de nós para os amigos.
Em um mês descobríamos como era a pessoa cujo nome sorteáramos.
Pelas revelações, também passávamos a imaginar como era a pessoa que havia tirado nosso nome.
Ao fim do ano havia união entre os alunos.
Comparar a brincadeira da infância com a farsa atual...
wDivagações e citações - Quarta-feira, Março 17, 2004
dos caminhos de ir e voltar
tijolo cimento e brita?
asfalto concreto e aço?
talvez um laço de fita
talvez a fita sem laço.
que vede. sei como faço.
que guarde além da desdita
silêncio que não limita
grito que diz de embaraço
:
que seja a palavra não dita.
que seja aquém deste espaço.
da cana que reste o bagaço.
da casa nem palafita.
à beira-mar o mormaço
à beira-rio suscita
tardes que a dor premedita
fadadas sempre ao fracasso
por crê-las longe do abraço
que a vida lhes requisita
:
não seja aquém deste espaço
não seja a palavra não dita.
o dia ainda dormita
da noite resta um pedaço
todos dormem e eu aflita
me debruço no terraço
buscando abandono lasso
que a saudade ressuscita
na lembrança inaudita
que fere qual estilhaço
:
seja a palavra enfim dita
aquém e além deste espaço.